Cão de Água Português

Conheça a história apaixonante do Cão de Água Português

Leal, inteligente, versátil e um nadador exímio. Foi um ajudante imprescindível aos pescadores na faina e chegou até a estar em risco de extinção. 

Em 1297, um manuscrito de um monge português descreveu-o como "cão leão" devido à tosquia típica do seu pêlo na cabeça em juba, que ainda hoje se mantém. Possui coloração negra, castanha ou branca, com pelagem ondulada ou encaracolada. De porte médio, robusto e musculado, é um animal que pode pesar entre 19 a 22 quilogramas. Este “cão pescador” de origens humildes adquiriu um estatuto de estrela nacional e ainda hoje é respeitado e olhado com admiração pelos pescadores quando circula pelos portos de recreio algarvios.

Carla Molinari e Silvino Macau, da Associação para a Proteção do Cão de Água Português (APCAP), explicam que são “animais apaixonantes pelo seu feitio, temperamento e lealdade”.

Fundada há 30 anos por Molinari e João Lisboa, a APCAP visa “desenvolver e divulgar a raça, organizar provas práticas de trabalho no mar e realizar exposições monográficas”. Ambos reconhecem que a “região do Algarve é histórica para esta raça”. “O Cão de Água Português teve origem no Algarve e durante muitos anos predominou só no Sul, nas zonas portuárias e portos de pesca, devido à sua utilidade junto dos pescadores na faina”, explica Silvino. Mais tarde “alguns barcos de pesca de outras zonas do país como Sesimbra e Lisboa, que efetuavam temporadas de trabalho no Algarve, começaram a adquirir alguns exemplares, o que despertou o interesse de criadores em Lisboa. Desenvolveram a raça e deram-na a conhecer ao mundo da canicultura”.

Molinari foi uma das primeiras criadoras e impulsionadoras do Cão de Água Português. Entre 1963 e 2003 iniciou um programa de reprodução destes exemplares, que permitiu a preservação e conservação da raça. Em 1993, foi pioneira ao lançar a obra “The Portuguese Water Dog”, uma obra de referência em todo o mundo.

 

Referências históricas aos cães pescadores

Um dos primeiros textos dedicados ao Cão de Água Português é da autoria de Manuel Marques e foi publicado na “Revista Medicina Veterinária", em 1938. O cão era considerado “parte da guarnição do barco” e como qualquer outro camarada “tinha o direito a um quinhão de peixe” mais a “quarta parte”, resultado da pescaria em dinheiro.

“Assistir ao trabalho de um cão de pesca que, sem hesitações, vai buscar ao fundo o objeto atirado de terra ou de bordo, vê-lo mergulhar, aparecer à tona de água passado algum tempo para tomar fôlego, submergir-se de novo, mostrando ao sair da imersão o objeto abocado, é um dos espetáculos mais interessantes e dignos de se presenciar nas praias do litoral”, escreveu na época.

Ao mesmo cão se referia o escritor e jornalista Raul Brandão em 1932, no seu livro “Os Pescadores”, a respeito da faina do alto dos caíques e traineiras de Olhão: “tripulavam-no 25 homens e dois cães, que ganhavam tanto como os homens. Era uma raça de bichos peludos, atentos um a cada bordo e ao lado dos pescadores. Fugia o peixe ao alar da linha, saltava o cão ao mar e ia agarrá-lo ao meio da água, trazendo-o na boca para bordo”.

A atitude dos homens do mar para com estes animais era representativa do seu valor: os cães nunca eram vendidos mas sempre oferecidos.

 

Uma raça apaixonante

Rodrigo Pinto, 54 anos, natural de Lisboa mudou-se para Lagos há 23 anos. Em 1995, adquiriu o seu primeiro Cão de Água Português. Decidiu dedicar-se à reprodução da raça e tem hoje 12 exemplares.

É frequente encontrá-lo a treinar diariamente os seus cães no “Cais da Solaria” em Lagos, junto à Praia da Batata. “Há seis anos que é a única zona do país com uma área licenciada pelo governo português para a prática do treino destes cães”, salienta.

Enquanto criador, defende que é fundamental não deixar cair em esquecimento as aptidões naturais da raça para o trabalho. Por isso, participa em provas de mar do campeonato nacional organizado pelo Clube Português de Canicultura (CPC) especificamente desenvolvidas para esta raça. 

“São exercícios que reproduzem partes do antigo trabalho do cão. Como mergulhar, recolher objetos caídos à água e o seu transporte para o barco ou recolher de redes. Aptidões inatas transmitidas geneticamente de geração em geração”, exemplifica.

Nos últimos três anos o CPC registou 36 criadores da raça no nosso país. Pinto é apenas um dos cerca de cinco criadores da raça no Algarve.

Encanta-o “a forma como foram apurados”. “Vieram para o sul de Portugal há centenas de anos e eram usados por gente pobre. Nasciam, viviam e morriam nas casas dos pescadores. Quando cresciam trabalhavam na faina no barco, e quando já estavam velhos de mais reformavam-se com o dinheiro que tinham recebido ao longo da vida. É o único cão do mundo que ganhava dinheiro pelo seu trabalho”. “São também bons cães de guarda embora não sejam agressivos. Uma outra das suas funções era guardar o barco em terra nos momentos de repouso da faina pesqueira”, revela.

Pinto considera que “interpretam o mar muito bem. Quando entram na água estudam a onda e têm uma alta resistência e força a nadar, o que lhes permite puxar a reboque um barco para terra ou mergulhar em apneia até dois ou três metros de profundidade”. É também fundamental testar a saúde dos exemplares para que estes gerem ninhadas equilibradas e saudáveis. 

Em Portugal assiste-se atualmente a um interesse renovado pela raça. De acordo com a APCAP “a criação no nosso país está ao nível do melhor que se faz no resto do mundo, pois temos criadores de excelência e que se preocupam em manter o Cão de Água Português nas melhores performances, efetuando despiste de doenças e mantendo assim padrões muito altos”, confidencia.

 

Os Cães de Água mais famosos do mundo

A raça portuguesa foi catapultada para a ribalta quando se tornou parte da família presidencial norte-americana. O presidente Barack Obama tinha prometido às duas filhas, Malia e Sasha, na noite eleitoral em novembro de 2008, que teriam um cão quando chegassem a Washington. Foi assim que “Bo”, agora com 7 anos, se juntou à família Obama em abril de 2009. O cão foi um presente do falecido senador Edward Kennedy, um aliado chave da campanha presidencial de 2008. Mais tarde, em agosto de 2013, a família adquiriu também a cadela “Sunny” para fazer companhia a “Bo”.

A raça é conhecida nos EUA por não causar alergias e por ter uma personalidade dócil, por isso não é de estranhar que tenham sido escolhidos enquanto mascotes pela família para morar na Casa Branca. A dupla canina costuma marcar presença em vários eventos oficiais, como visitas a hospitais infantis ou receber convidados na Casa Branca. Enquanto a cadela “Sunny” é totalmente preta, o macho “Bo” apresenta várias manchas brancas.

 

Próximos eventos com o Cão de Água Português

Para o ano de 2016 estão programadas diversos eventos. O IIº Meeting do Cão de Água realizar-se-á em diversas datas e pontos do país: dia 10 de Setembro na Zambujeira do Mar, dias 11 e 12 de setembro na Meia Praia e no Cais da Solaria em Lagos, dia 16 de setembro na costa alentejana (a confirmar), dia 17 setembro na Boca do Rio em Vila do Bispo, e dia 18 de setembro na praia do Martinhal, em Sagres. A exposição especializada da raça realiza-se no dia 17 de setembro, em Vila do Bispo. Em Lagos, há ainda a possibilidade de desfrutar, entre 13 e 16 de setembro, de diversas atividades ligadas à raça, como busca operativa e desportiva, cães de assistência, salvamento aquático, obediência e agilidade, entre outros.

Texto: Sara Alves
Fotos: Francisco Oliveira