At their feet

A indústria mais sexy da Europa continua a crescer em força. 

A campanha de promoção da APICCAPS (Associação Portuguesa dos Industriais de Calçado, Componentes, Artigos de Pele e seus Sucedâneos) designava a indústria portuguesa de calçado como “a indústria mais sexy da Europa”. Em 2015, terão talvez de alterar esse título para “a mais lucrativa”. Se 2013 já foi um ano que ficou na história do sector – com 1.700 milhões de euros em exportações -, a estimativa da APICCAPS prevê que os números de 2014 tenham ultrapassado este valor. 

Terão sido mais de 1.850 milhões de euros em vendas de calçado no mercado internacional, naquele que foi o quinto recorde consecutivo anual de exportações da indústria. Só nos primeiros nove meses do ano passado, o sector do calçado exportou 70 milhões de pares de sapatos, o equivalente a 1.650 milhões de euros, um crescimento de 8,8% face ao mesmo período do ano anterior. Criou ainda mais de 600 novos postos de trabalho e a tendência é para continuar a crescer: em 2015, Paulo Gonçalves, porta-voz da associação empresarial, espera que o calçado português atinja os 2.000 milhões de euros em exportações. 

Portugal não está só a exportar mais sapatos. Está também a exportá-los para destinos diferentes, com as vendas para os EUA, Canadá, Austrália e China a crescerem na casa dos dois dígitos. Por tradição, a indústria portuguesa de calçado sempre se centrou em cidades como Felgueiras, Guimarães, Santa Maria da Feira e Porto, em empresas de pequena dimensão, que todavia se destacam muitas vezes pela qualidade e artesanalidade do seu trabalho. 

Ainda assim e apesar do seu cariz familiar, este é um sector claramente organizado, cuja associação empresarial traça planos estratégicos desde 1978, como nos contou o porta-voz da APICCAPS. “O plano para 2020, por exemplo, já está elaborado”, diz Paulo Gonçalves. 

Além disso, muitas das fábricas familiares são hoje lideradas por empresários de segunda e terceira geração, com uma mentalidade moderna e aberta ao mundo. Juntemos a isto o acordo de comércio livre no início da década de 1960 e a entrada de Portugal na CEE, em 1986, e concluiremos como o sector reuniu, pouco a pouco, as condições para alcançar os números das suas exportações atuais, fazendo do calçado a indústria que mais contribui para a balança comercial portuguesa. 

Um bom exemplo deste triunfo é Luís Onofre. Os sapatos deste designer nortenho são sinónimo de qualidade, elegância e bom gosto, sendo criados para a mulher moderna e destemida. O nome do criador brilha no mercado internacional – em 2012, 97% da sua produção foi exportada – com a ajuda de algumas figuras de destaque: a rainha Letizia de Espanha e a primeira-dama dos EUA, Michelle Obama, já usaram as suas criações. Onofre personifica, de certa forma, o sucesso da indústria nacional: o seu negócio é de origem familiar, tendo o criador em 1993 tomado as rédeas da fábrica da sua avó, Conceição Rosa Pereira, e lançado a sua primeira coleção seis anos depois. Depois de muitas exportações, já no início de 2014, o número 247 da luxuosa Avenida da Liberdade, em Lisboa, recebe a primeira loja de referência do criador. Os seus sapatos, porém, encontram-se por todo o mundo, tanto em Angola como em China, Dubai, Canadá e Alemanha. 

É este sucesso mundial que marcas mais recentes também procuram, como a Relyquia, criada em 2013. 

Fundada com o intuito de “criar uma marca de moda diferente que eleve o nome do calçado português no mundo inteiro”, o nome Relyquia foi uma ideia do seu fundador e CEO, Miguel Guimarães, cujo pai guardava com prazer todas as coisas que mais estimava: da palavra usada para nomear todas essas coisas – relíquias - nasceu a Relyquia. 

Produzidos inteiramente em Santa Maria da Feira, o calçado para senhora e homem Relyquia é feito de pele genuína mediante técnicas tradicionais, mas a marca acrescentou-lhe também um toque de modernidade, visível nas incrustações de metais preciosos, tatuagens com mensagens ou motivos personalizados e ainda através da oferta do serviço Bespoke. Este consiste no fabrico personalizado do completo calçado, desde a escolha do modelo, às suas cores e aplicações decorativas. “Julgamos ser das poucas, senão a única marca a tatuar sapatos com o que o cliente quiser”, frisou o CEO. Com um preço que ronda os 500 euros por par, os sapatos Relyquia podem ser adquiridos em várias lojas online e são entregues numa caixa de madeira com o nome do cliente. “Queremos acompanhar e fidelizar o nosso cliente em várias fases da sua vida, torná-los fiéis à Relyquia e ao lifestyle que esta representa.” Uma das marcas portuguesas que já o fez é a FLY London, de Fortunato Frederico, um empreendedor vimaranense que se fez sozinho. Frederico comprou a marca a dois sócios ingleses desavindos em 1994, e hoje a FLY – com o seu símbolo estilizado de mosca e sapatos confortáveis com designs arrojados – é uma das principais embaixadoras do calçado nacional. O Reino Unido continua a ser o principal mercado internacional da marca, que é distribuída em mais de 400 pontos de venda independentes e conta com duas lojas de referência em Londres, mas a marca exporta mais de dois terços da sua produção para países como o Brasil, Espanha e Estados Unidos. 

Igualmente coloridas são as criações da Cubanas, marca criada em 2005. Com mais de 500 pontos de venda em Portugal e no estrangeiro, a Cubanas distingue-se por dois aspetos: não só a sua sede está longe do “monopólio” do norte do país, em Alcanena, Santarém, como a marca não dispõe de uma produção própria, subcontratando o fabrico dos seus sapatos a fábricas nacionais. Visa criar calçado divertido mas também confortável – à semelhança da Aerosoles, outra cabecilha da indústria nacional - e inovador. Esta originalidade e vanguarda, presentes em criações como as galochas de Verão, ou através da inserção de um chip nos sapatos ligado diretamente a uma aplicação de telemóvel que nos aconselha sobre o que vestir e calçar, têm-lhe valido vários prémios em feiras da indústria. Será este o futuro da indústria do calçado em Portugal? Afinal, para a frente é que é caminho!